sábado, 8 de março de 2008

Circulação




Ela dançava na embriaguez das horas. O tempo ressoava em suas veias e o veneno das lembranças pulsava em seu coração de memórias (sim, é o coração, e não o cérebro que guarda as memórias, há mais sentimento do que pensamento nelas). Os segundos que lhe surrupiavam o ar, pouco a pouco, feriam-lhe o rosto e gastavam-lhe o fôlego de viver. Ah, o presente é um suspiro fugidio! Quanto mais ela suspirava - ou assobiava cantando a canção da saudade - mais o ar lhe faltava. Mas, mesmo apesar do cansaço, ela dançava, sob o pretexto de sonhar que o tempo - esse tempo - não lhe matava. Então, um dia, aconteceu.
O ínfimo ar, que ainda lhe purificava o sangue, ficou preso no vento que lhe soprava as narinas no instante primeiro do acordar. E ela disse, de si para si, "o tempo está em mim". E como a ausência do passado e do futuro preencheram ela, não se sabe. Só o que contam é que ela anda por aí, a dançar nos leitos de morte, nas casas de estrelas vivas, nos passos daquele que caminha..

quarta-feira, 5 de março de 2008

Um cão dançando parado

Ontem eu vi um cão morto.
E hoje, quando no leito de sua morte passei,
Lá estava ele novamente,
Morto,
Maior do que ontem,
Com a boca escancarada de podridão,
Moscas ao pé do ouvido..
Ele estava lá
E ninguém olhava pra ele
Assim como ninguém olha para os mortos que mendigam pelas ruas.


E eu, horrorizada, vedei mais ainda meus olhos
Porque senti e fingi não ver.

sábado, 1 de março de 2008

Casa de flores


Venho correndo contra a corrente,
A luz se distrai e
A rua taciturna se esconde nas sombras.
Onde está o portão da minha casa de flores?

A pergunta cala-se em mim e

A corrente inunda meu ser.
Chovem flores em gotas
Suspensas do meu pensar.

Veloz, a luz volta

E a rua se encontra.
Presa sob meus olhos fascinados,
A certeza pulsa como vivo:
O portão da minha casa de flores está em mim,
Rosas vagueiam minhas artérias..