
Ela dançava na embriaguez das horas. O tempo ressoava em suas veias e o veneno das lembranças pulsava em seu coração de memórias (sim, é o coração, e não o cérebro que guarda as memórias, há mais sentimento do que pensamento nelas). Os segundos que lhe surrupiavam o ar, pouco a pouco, feriam-lhe o rosto e gastavam-lhe o fôlego de viver. Ah, o presente é um suspiro fugidio! Quanto mais ela suspirava - ou assobiava cantando a canção da saudade - mais o ar lhe faltava. Mas, mesmo apesar do cansaço, ela dançava, sob o pretexto de sonhar que o tempo - esse tempo - não lhe matava. Então, um dia, aconteceu.
O ínfimo ar, que ainda lhe purificava o sangue, ficou preso no vento que lhe soprava as narinas no instante primeiro do acordar. E ela disse, de si para si, "o tempo está em mim". E como a ausência do passado e do futuro preencheram ela, não se sabe. Só o que contam é que ela anda por aí, a dançar nos leitos de morte, nas casas de estrelas vivas, nos passos daquele que caminha..