quinta-feira, 5 de junho de 2008

Um poema para meu futuro filho

(Van Gogh)

Quem disse que o pássaro azul brota da árvore?

Ele é como uma flor que voa, voa, voa sob o sol.



Quando o sol se vai,

Ele cai, cai, cai do céu,

Como a chuva que pinga dos olhos de deus.



Então a noite vem,

E o pássaro-flor volta pra dentro da terra,

Como uma semente sedenta de azul.



Até que um dia,

Radiante, a primavera volta,

E com ela, infinitos pássaros azuis brotando das árvores,

Riscando o céu,

Cobrindo o sol

E semeando a chuva..


terça-feira, 3 de junho de 2008

Caco emparedado


Encontro-me no chão gelado da sala, espalhada e fria como vidro que se quebrou pelo toque. Como se uma taça de vinho tivesse tido a sensação embriagante das uvas fermentadas e, assim, se partido em milhões de cacos. Tudo isso – tudo –, porque me dera conta do que meu corpo carregava: a fonte de todo o prazer e de toda a loucura – Dionísio pisado tragicamente pelas Bacantes.

Imagina, eu, ter em meu ventre o veneno da insanidade? Não, melhor morrer. Antes a morte do que a vida embriagada de paixão. Antes a solidão gélida do canto da sala – que ninguém nota – do que a presença constante de bocas vermelhas e sedentas de prazer.

Então minha natureza de caco se fixa na parede da sala e já não estou só – milhões de cacos ali se encontram, vindos de outras tantas taças, quebradas pelo toque de outras tantas bocas. E como se chama isso? Que nome dar quando milhões de solidões estão presas numa parede?