terça-feira, 3 de junho de 2008

Caco emparedado


Encontro-me no chão gelado da sala, espalhada e fria como vidro que se quebrou pelo toque. Como se uma taça de vinho tivesse tido a sensação embriagante das uvas fermentadas e, assim, se partido em milhões de cacos. Tudo isso – tudo –, porque me dera conta do que meu corpo carregava: a fonte de todo o prazer e de toda a loucura – Dionísio pisado tragicamente pelas Bacantes.

Imagina, eu, ter em meu ventre o veneno da insanidade? Não, melhor morrer. Antes a morte do que a vida embriagada de paixão. Antes a solidão gélida do canto da sala – que ninguém nota – do que a presença constante de bocas vermelhas e sedentas de prazer.

Então minha natureza de caco se fixa na parede da sala e já não estou só – milhões de cacos ali se encontram, vindos de outras tantas taças, quebradas pelo toque de outras tantas bocas. E como se chama isso? Que nome dar quando milhões de solidões estão presas numa parede?

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