sexta-feira, 24 de outubro de 2008

o,


O vento leve passa
e abre minha mão,
busco um beijo teu.

Minha nuca arrepia entre teus dentes,
me perco nas linhas das tuas mãos
e me equeço,
o tempo guardado no teu bolso
quer gritar,
silencia ele!

Vem, depressa,
beija a minha boca
que é no beijo
que o tempo cala.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008




os ventos que digam


dos sonhos que sou


há alguns centímetros


de mim,




os pés que gritem


das realidades que tive


há muitas léguas


de mim,


..

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Um poema para meu futuro filho

(Van Gogh)

Quem disse que o pássaro azul brota da árvore?

Ele é como uma flor que voa, voa, voa sob o sol.



Quando o sol se vai,

Ele cai, cai, cai do céu,

Como a chuva que pinga dos olhos de deus.



Então a noite vem,

E o pássaro-flor volta pra dentro da terra,

Como uma semente sedenta de azul.



Até que um dia,

Radiante, a primavera volta,

E com ela, infinitos pássaros azuis brotando das árvores,

Riscando o céu,

Cobrindo o sol

E semeando a chuva..


terça-feira, 3 de junho de 2008

Caco emparedado


Encontro-me no chão gelado da sala, espalhada e fria como vidro que se quebrou pelo toque. Como se uma taça de vinho tivesse tido a sensação embriagante das uvas fermentadas e, assim, se partido em milhões de cacos. Tudo isso – tudo –, porque me dera conta do que meu corpo carregava: a fonte de todo o prazer e de toda a loucura – Dionísio pisado tragicamente pelas Bacantes.

Imagina, eu, ter em meu ventre o veneno da insanidade? Não, melhor morrer. Antes a morte do que a vida embriagada de paixão. Antes a solidão gélida do canto da sala – que ninguém nota – do que a presença constante de bocas vermelhas e sedentas de prazer.

Então minha natureza de caco se fixa na parede da sala e já não estou só – milhões de cacos ali se encontram, vindos de outras tantas taças, quebradas pelo toque de outras tantas bocas. E como se chama isso? Que nome dar quando milhões de solidões estão presas numa parede?

sábado, 8 de março de 2008

Circulação




Ela dançava na embriaguez das horas. O tempo ressoava em suas veias e o veneno das lembranças pulsava em seu coração de memórias (sim, é o coração, e não o cérebro que guarda as memórias, há mais sentimento do que pensamento nelas). Os segundos que lhe surrupiavam o ar, pouco a pouco, feriam-lhe o rosto e gastavam-lhe o fôlego de viver. Ah, o presente é um suspiro fugidio! Quanto mais ela suspirava - ou assobiava cantando a canção da saudade - mais o ar lhe faltava. Mas, mesmo apesar do cansaço, ela dançava, sob o pretexto de sonhar que o tempo - esse tempo - não lhe matava. Então, um dia, aconteceu.
O ínfimo ar, que ainda lhe purificava o sangue, ficou preso no vento que lhe soprava as narinas no instante primeiro do acordar. E ela disse, de si para si, "o tempo está em mim". E como a ausência do passado e do futuro preencheram ela, não se sabe. Só o que contam é que ela anda por aí, a dançar nos leitos de morte, nas casas de estrelas vivas, nos passos daquele que caminha..

quarta-feira, 5 de março de 2008

Um cão dançando parado

Ontem eu vi um cão morto.
E hoje, quando no leito de sua morte passei,
Lá estava ele novamente,
Morto,
Maior do que ontem,
Com a boca escancarada de podridão,
Moscas ao pé do ouvido..
Ele estava lá
E ninguém olhava pra ele
Assim como ninguém olha para os mortos que mendigam pelas ruas.


E eu, horrorizada, vedei mais ainda meus olhos
Porque senti e fingi não ver.

sábado, 1 de março de 2008

Casa de flores


Venho correndo contra a corrente,
A luz se distrai e
A rua taciturna se esconde nas sombras.
Onde está o portão da minha casa de flores?

A pergunta cala-se em mim e

A corrente inunda meu ser.
Chovem flores em gotas
Suspensas do meu pensar.

Veloz, a luz volta

E a rua se encontra.
Presa sob meus olhos fascinados,
A certeza pulsa como vivo:
O portão da minha casa de flores está em mim,
Rosas vagueiam minhas artérias..

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Ando, verso, perco..

Ando com as calças folgadas,
as mãos folgadas,
a vida folgada..

Falta-me o cúmplice das horas apertadas,
o aconchego das mãos vazias,
o cortejo que me faça sambar numa avenida,
o ritmo de carimbó que embale meu vestido,
os pés ao lado dos meus a construir caminhos..

Ando versos perdidos na folgadura da vida,
número sem par,
água sem corrente acorrentada na maré da solidão,
peça espalhada pelo chão
sem encaixe,
caixa sem som.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Quero ser amada como uma prostituta.

Quero ser amada como uma prostituta.
Não quero as juras ilusórias de um amor puro,
Quero o amor dos corpos,
A sinceridade dos amantes efêmeros.

Não quero a vida de princesas ou deusas,
Que moram em castelos de areia
Aonde o mar não chega.

Preciso sentir o sal das ondas presentes,
Vivas e avassaladoras em tempestade.
Beijar as bocas de palavras cuspidas
E envenenadas de amor sujo.
E, ao final, vomitar desejos
Carregados de pérolas libidinosas

- porque é a concha que guarda os maiores amores.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008


Estou em dívida com o tempo.
Os livros jazem nas estantes,
As horas escorrem na beirada da cama.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O mundo escaldante queima-me a pele da alma.
Sorrio e pergunto:
- Que nojo é esse que se me apodera do estômago?

O asco corre minhas entranhas, mergulhadas em poços de esgotos mal cheirosos.
Sinto enjoo de mim,
do mundo,
do ser humano.

Quero vomitar as palavras que traduzem meu pensar,
mas o golfo estanca no estômago
e as larvas sobem minha boca
à procura de versos,
de ar.

Meus lábios escorrem veneno de bile aprisionada,
os dentes se agitam,
mordem minha bochecha
e escorro sal.

O mar sai de dentro de mim
com suas estrelas
e seus mistérios.

O cheiro estonteante da maresia
goza meus sentidos
e todo sulco envenenado
escorre as avenidas.

Na esquina próxima tudo deságua:
eu,
o mundo
e o ser humano.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Fotografia de nós.


Em trupe espergimos olhares curiosos,
guia-nos a vontade de ver - além
da superfície de corpos e paisagens.

Aventuramo-nos sob o pretexto
da descoberta de um mundo - outro,
refletido pelo olhar das lentes - de nós mesmos.

A luz que escreve sobre o anteparo
projeta sombras do mundo - nosso.
E só porque somos fotografia de nós
é que fotografamos o outro.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Entro
Esqueço
Desapareço.

Tropeço em galhos secos,
raízes estéreis seguram meu andar.
Cresço para além das copas das árvores,
chego ao céu e
escureço.
Fora de mim sou nada,
empobreço.

Onde andam as palavras que busco fora de mim?
Embruteço.
Choro.
As raízes estancam meu sonhar,
sou toda seca,
oca,
só.

As folhas amarelas tardam a nascer.

a Fotografia.


Os olhos que capturam a luz
traduzem o íntimo
da natureza de ventos
e seres..

Os pássaros cantam
a sua ópera de cores
sob o olhar perdido
de quem ama..

Fecunda luz aureolar
que transborda pincéis deslizantes
suspensos
confusos
entre a retina e o mundo
perdidos sobre a tela vazia,
ungidos de cor
e vivos pela luz
que liberta e aprisiona
a Fotografia.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Pensar em gota


A chuva que cai recrudesce meu pensar.
Penso na gota que encontra o chão a cada fração de segundo.
E em como poderia estar sentindo-as tocar minhas costas,
encharcar meus cabelos,
lavar minha alma..
Mas penso, e ao pensar, molho minha roupa, adoeço meu corpo.
Se eu tivesse um guarda-chuva, talvez me arriscaria a sair daqui.
O guarda-chuva é o pensar, a chuva o sentir.
Quem chove? A natureza ou o homem?
A natureza chove, o homem chora.
E a água? Que é a água?
É apenas o elo entre chuva e choro.
As nuvens chovem, os olhos choram.
O homem chora porque sente.
Pensa em chorar?
Não, lágrimas são desprovidas de pensamentos.
A natureza não pensa em chorar, chove apenas, sem pensar.

O homem pensa enquanto chora.
Pensa? Sente?
De qualquer forma pensa, porque enxuga as lágrimas, esconde-as.
A chuva não se esconde, ela alaga, inunda, nutre, destrói.
O choro vem de dentro.
A chuva? De fora.
A chuva lava as janelas do mundo.
O choro, as janelas da alma.
E o mundo não tem alma?
A alma do mundo é os homens.
A alma do homem, não sei.
Não sei porque sei não saber.
Sei porque penso, penso não saber.
A chuva pára, pára porque não tem mais água pra chover e não porque pensa.
O homem pára de chorar porque pensa.
As gotas que ainda caem são de acúmulos de água nas árvores, nos telhados,
são restos de chuva que pingam.
São restos porque não pensam.
O homem não é resto porque pensa,
enxuga a lágrima porque pensa,
guarda os pingos em excesso porque pensa.
A chuva acabou porque não pensa,
vou embora porque penso..