
A chuva que cai recrudesce meu pensar.
Penso na gota que encontra o chão a cada fração de segundo.
E em como poderia estar sentindo-as tocar minhas costas,
encharcar meus cabelos,
lavar minha alma..
Mas penso, e ao pensar, molho minha roupa, adoeço meu corpo.
Se eu tivesse um guarda-chuva, talvez me arriscaria a sair daqui.
O guarda-chuva é o pensar, a chuva o sentir.
Quem chove? A natureza ou o homem?
A natureza chove, o homem chora.
E a água? Que é a água?
É apenas o elo entre chuva e choro.
As nuvens chovem, os olhos choram.
O homem chora porque sente.
Pensa em chorar?
Não, lágrimas são desprovidas de pensamentos.
A natureza não pensa em chorar, chove apenas, sem pensar.
O homem pensa enquanto chora.
Pensa? Sente?
De qualquer forma pensa, porque enxuga as lágrimas, esconde-as.
A chuva não se esconde, ela alaga, inunda, nutre, destrói.
O choro vem de dentro.
A chuva? De fora.
A chuva lava as janelas do mundo.
O choro, as janelas da alma.
E o mundo não tem alma?
A alma do mundo é os homens.
A alma do homem, não sei.
Não sei porque sei não saber.
Sei porque penso, penso não saber.
A chuva pára, pára porque não tem mais água pra chover e não porque pensa.
O homem pára de chorar porque pensa.
As gotas que ainda caem são de acúmulos de água nas árvores, nos telhados,
são restos de chuva que pingam.
São restos porque não pensam.
O homem não é resto porque pensa,
enxuga a lágrima porque pensa,
guarda os pingos em excesso porque pensa.
A chuva acabou porque não pensa,
vou embora porque penso..